Parada Cardíaca

[Desculpem o tamanho do texto, me explico ao longo dele.]

 

Há três anos me despertaram para algo que eu nunca tinha me dado conta. Devemos viver fazendo aquilo que nos faz viver.

Não se trata de uma questão de sobreviver, muito pelo contrário. Não é sobreviver. É viver, no máximo que isso representa. Algo tão absurdamente importante para você a ponto de tornar impossível viver sem esse “algo”. Não é algo que você goste muito de fazer ou faça bem. É algo sem o qual você deixe de ser quem é. Descaracterizado, completamente sem identidade.

Todos temos algo que nos faz viver. Que faz as pessoas se lembrarem de quem somos. Isso, nós não aprendemos, ninguém nos ensina. Simplesmente vem com a gente, juntamente com nossos olhos, dedos, risadas e personalidade.

Esse algo nos completa. Nos forma. É nossa principal marca digital, sem ela, somos ninguém e nada fazemos.

Dez anos atrás descobri porquê tinha sido criada. Para quê. O que eu queria e deveria ser. Antes de Clarice Lispector e Chico Buarque. Antes de Drummond e Fernando Pessoa. Antes de blogs e acampamentos que tratassem sobre identidade. Há dez anos percebi: eu queria, deveria e seria escritora.

Eu não sabia como publicar livros, o que era um editor, não sabia sequer da existência da revisão. Com onze anos escrevi a minha primeira história e todo o quebra-cabeça que eu era juntou-se, formando uma peça única. Todos aqueles personagens que eu inventava e eram meus amigos imaginários me visitaram naquele momento. Eu saí do escuro e percebi exatamente o ponto em que deveria chegar, como um X em um mapa, eu sabia para onde deveria ir.

Lembro exatamente como foi: era uma aula de redação, na quinta série. A professora colocou uma foto em preto e branco na lousa e nós deveríamos escrever uma história com a cena que estava na fotografia. A foto era uma mão dentro de um carro dando moedas para outra que estava do lado de fora, o vidro semiaberto. Escrevi quatro páginas e só parei porque a professora veio retirar a folha enquanto a aula chegava no fim. Ela daria um “prêmio” para quem escrevesse a melhor redação. Assim que ela terminou de ler o meu texto, veio um silêncio e lágrimas estavam caindo dos olhos dela. Minhas amigas falavam que eu ganharia o prêmio. Mas o prêmio não veio. A professora apenas me olhou e disse “muito bom“. Nos olhamos cúmplices. O sinal do fim da aula veio e salvou o clima tenso, ela saiu e todos saíram para o recreio. Eu nunca mais seria a mesma que havia sido até ali. A partir desse momento, eu finalmente era eu e não havia mais nada a acrescentar.

Desde aquela redação, escrever tem sido a minha respiração, o que me mantém viva. Eu tentei algumas outras coisas, mas nada se compara. É como tentar encaixar um círculo em um quadrado. Nada é mais importante do que estar em dia com a minha caneta. Para mim, escrever é viver. Respiro, penso, sinto, me apaixono, qualquer coisa fica melhor depois que escrevo.

Estar em dia com o que te mantém vivo é permanecer vivo, é muito mais do que sobreviver.

Há algum tempo não tenho conseguido escrever. Não se trata apenas de qualidade. Me sinto gaga, soluçando frases óbvias nas quais o meu único mérito foi tê-las escrito antes de alguém no meu círculo.

Entrei na faculdade de Letras querendo aprender a escrever melhor, chegar um pouco mais perto dos gênios que atravessaram o meu caminho. Mas desde que comecei a faculdade estou assim, soluçando infinitamente. Tendo bloqueios em que até meus professores dizem que não fazem sentido. O mais marcante de todos chegou a dizer que eu não estava conseguindo escrever e comunicar o que estava pensando (pensa no meu estado de choque). Que eu estava com medo de errar. Que eu deveria estudar mais. E (impedindo que eu me jogasse de algum penhasco) que ele sabia que eu escrevia muito bem e fazia trabalhos ótimos. Ele mesmo percebeu que não fazia sentido eu não conseguir escrever. A minha principal característica estava faltando. A peça principal do quebra-cabeça havia sumido, todo mundo percebia que tinha alguma coisa errada.

Desde então, cada texto é um parto. Eu virei uma flor sem sol nem água. Pode parecer exagero. Estou sem o que me mantém sã e sóbria no meio da loucura e da embriaguez da realidade. Foi o ano mais difícil da minha vida até aqui.

Dizem que é apenas uma fase, que estou em formação, aprendendo e recebendo informações. Mas preciso perguntar: como viver sem respirar? Não sei viver sem escrever. Tenho apenas sobrevivido, para ser honesta.

Não vou me gabar para mim mesma dizendo “mas olha tudo o que você escreveu até agora!”. A vida não é feita de “momentos de respiração”. É feita de paixões que fazem o seu coração bater, de atos que te mantém vivo, sem os quais você não consegue se imaginar vivendo. Eu não vivo sem escrever. Esse texto é como um choque em uma parada cardíaca.

E então, o que te faz viver?

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4 comentários em “Parada Cardíaca

  1. Sim! Há um tipo de saudade que é muito cruel e injusta.
    É a saudade de si mesmo. Saudade do que faz o olho brilhar…

    Chega a ser engraçado, para não dizer paradoxal, o fato de dormirmos um dia com toda a certeza existente de que “somos algo… acreditamos em algo… realizamos algo… construímos algo…”, e no outro dia acordamos com mais dúvidas do que uma criança com um ano de idade que ainda trava uma batalha árdua para adquirir a simples capacidade de caminhar.

    E ai nos perguntamos, “Mas espere ai, até ontem eu transformava um simples papel branco em um perfeito reflexo de mim mesmo, e hoje não faço nada além de repetir um ciclo vicioso para fazer nascer uma suposta inspiração induzida pelo que eu acho que conheço. Algo está errado!”
    Pasme! Você não está sozinha no “buraco negro”.
    Cá estou, ou melhor, cá estamos!

    Não sei ao certo dizer o que provoca isso.
    Vejamos… Talvez a falta de uma análise racional do mundo ao nosso redor? Não sei, mas pensando assim eu seria meramente lógico, seguindo uma estrutura pré-estabelecida por mim e para mim. Solução fácil demais!

    Poderia ser falta de repertório? Talvez sim, mas pensando desta forma eu já sairia correndo atrás de uma lista de referências que me darão algumas doses de inspiração induzida por mim. Seria como drogar meu alter ego. Totalmente fora da minha naturalidade, só para criar mais “repertório” ainda… WELCOME, ANOTHER SYSTEM!

    Técnica?! Não, técnica é só uma parte.

    Está ai! Talvez pensar demais seja o erro.
    Não entenda “pensar” enquanto saber por onde ir para conceber o filho/texto, mas sim como criar algumas barreiras tão invisíveis e intransponíveis que chegam, no meu caso, a cegar.
    É dai que surgem as temidas obviedades.
    Do pensar, do executar, do falar: “Tenho que ser original! Tenho que ter uma ideia nova! Qual é a nova palavra?”.
    Para te falar a verdade, isso é um martírio! Ao menos para mim.

    Lendo o seu texto, decidi apenas escrever… (Com um revisão ortográfica ao final! rs).
    Escrever só com o que vier na telha. Ser fiel comigo mesmo!
    Sem técnica, sem pré-estruturas, sem picuinhas comigo…
    Só deixar as palavras se jogarem na tela.
    Obviamente (essa palavra me assusta), que ao terminar um parágrafo, pensei: “Meu Deus! Isso está um verdadeiro lixo!”, mas não me permito apagar sequer uma vírgula.
    Ficará assim!

    Nesse meio tempo, tentei fazer uma avaliação de mim.
    Não estou dizendo que me descobri uma nova pessoa e que, para buscar inspiração, vou largar tudo e começar a vender brincos e colares artesanais em Embu das Artes.
    Quero estar atento e entender, através do meu sentido, o que está acontecendo ao meu redor.
    Acordar amanhã e me perguntar qual é o motivo de estar levantando.
    Perguntar para mim quais são os meus critérios tão “magníficos” para definir algo como bom ou ruim, original ou óbvio, fraco ou forte…

    Buscamos tanto a inspiração, mas de vez em quando ela não quer papo!

    Ai começa a correria! São documentários da Discovery, ou filmes, ou problemas sociais…
    AHHHHHHHH!! NÃO ENCONTRO EM LUGAR ALGUM!

    Mas hoje, a inspiração esteve no texto que li neste endereço. https://amandacoca.wordpress.com/2012/01/27/parada-cardiaca/

    Aliás, o que escrevi agora pode não ter sentido algum, mas não apaguei uma palavra, uma letra… Está postado e pronto!

    Só escrevi.

    Só escreva.
    E depois viva… Depois coma… Depois durma… Depois vá ao parque… Depois beba…
    Depois escreva…

    Amanda, se nessas idas e vindas você achar um desfibrilador literário, avise!

    E sim! Seu texto foi SENSACIONAL!

  2. Nossa! O que falar depois de tudo isso que você escreveu?
    Adorei tudo o que vc colocou, desde a saudade até esse delicioso “sensacional”! rs
    Mas o que eu realmente gostei foi de receber essa sua “primeira impressão” do texto. Meus leitores são quietinhos, às vezes até parece que estou falando sozinha por aqui, só sei que não estou porque o gráficozinho de visitas tem umas barrinhas pra cima, então acho que alguém lê. rs
    Obrigada por ler!
    É uma saudade, é exatamente isso.
    Seguirei seus conselhos à risca! Ou pelo menos vou tentar! rs
    Make yourself comfortable!

  3. Carambolas, Monha!

    Você não está sozinha neste buraco negro que suga todo mundo de si, não! (boa, Diego!).
    E não foi só uma questão de achar o texto bom, sabe?
    Foi você falar o que eu (apostanto as minhas duas mãos agora ) acho que a maioria das pessoas sente, mas esquece… ou pula… ou ignora. É o que, na minha opinião, faz de grandes escritores GRANDES escritores…
    É o você conseguir colocar as coisas de dentro pra fora… desse jeito assim, tão encaixável.

    E que deve estar fazendo todos que estão lendo agora parar pra respirar,e folhear diários, cadernos, álbuns ou blogs velhos… só pra tentar achar o que ficou perdido lá atrás. Atrás de uma pilha de coisas que inventaram pra gente fazer, ou que nós mesmo inventamos pra gente, por causa dos outros. E lá atrás a gente vai achar “a gente”! Puro e simpleS! 🙂

    Don’t give up what you want the most, for what you want now! 🙂
    Te monho!

  4. Ler =)….ler pessoas =) coisas assim! =D me fazem viver bem

    Acho que voce gosta disso também não é?
    Uma vez você disse que gosta de observar as pessoas e tá sempre fazendo isso, normalmente quietinha, mas observando os comportamentos, ou algo assim. Pelo menos foi essa a impressão que fiquei do que você falou, um dia.

    Abraço!

    Keep walking, keep writing!

    Peace!

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