Não vá para o futuro

Eu avisei. Falei para ele ir devagar, não correr tanto. Mas adianta avisar?

Mandei um bilhete, mas ele nem sequer abriu. Fiz de tudo para ele saber que aquele não era o lugar dele, mas mesmo assim ele foi, e foi correndo.

De tanto se fingir de surdo, de cego, eu resolvi me fingir de muda. Brincamos assim, enquanto o tempo passava.

Após alguns meses, explosões aconteceram, uma guerra eclodiu, o choro se apresentou. Teve dor e o céu ficou escuro, apesar do fogo. Não ventava e não chovia, mas tudo ardia.

Uma hora, peguei na mão dele e o fiz sentir as pedras quebradas, os buracos nas ruas, as folhas de papel rasgadas, nada estava escrito. Mostrei que o ar não se mexia e a vida se escondia assustada, ninguém sabia exatamente onde ela estava.

Só ele era capaz de descobrir.

Depois de tanto tempo fingindo ser cego, fingindo ser surdo, ele se esqueceu de como realmente era, que já havia escutado e visto muito do mundo.

Guiei seus passos até o meio do vazio. Os poucos remanescentes daquele mundo o olhavam sem saber o que esperar. Tudo dependia dele.

Ficamos todos ali, parados. Ninguém sabia o que esperar, mas esperávamos, precisávamos esperar.

Como se não quisesse chegar, uma brisa passou. Levantou de leve a poeira e foi embora. Com ela, trouxe um cheiro de lavanda. Ninguém havia percebido, mas estávamos perto de onde havia sido uma floricultura.

Com aquilo, ele se lembrou dos sons das árvores falando, lembrou que as escutava, lembrou que já havia escutado um dia. Resolveu voltar a escutar, só para ter notícias das árvores. Naquele momento, uma ventania forte chegou, levou consigo toda a poeira, só restou a lavanda. Mas ainda estava escuro, ninguém sabia o que estava acontecendo.

Depois que a ventania passou, veio o silêncio, que finalmente trouxe a paz. As lágrimas secaram e tudo estava limpo. Aos poucos, as nuvens negras foram indo embora, o sol matava a saudade que todos tinham da luz.

Após alguns segundos de surpresa, começou a chover. A água levou embora a tristeza, as cinzas que o fogo havia multiplicado, lavou as ruas, as casas, todo mundo. Ele chorava.

Quando estávamos quase nos acostumando com aquela vida de lavanda, vento e água, ele resolveu abrir aquele bilhete que eu mandei.

“Coração, não vá para o futuro. Você faz muito estrago quando vive por lá.”

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