Trilhos invisíveis

Ok. Chegou a hora de falar de você.

Confesso, estava evitando. Quem quer tocar na ferida? Mas dizem que para um machucado melhorar, precisamos limpar, passar remédio, enfim, mexer. E chegou a hora de me curar de você.

Lembro quando você chegou. Achei que seria bem normal, nada de espetacular, dentro do previsto, sabe? Escolhi a palavra que seria sua. Equilíbrio. É, eu sei que você está rindo. Mas enganos acontecem, não é?

Fizemos nossa lista e calculamos nossos sonhos. E ainda enquanto eu sonhava, você chegava com surpresas. Todas. As mais inimagináveis. Algumas me fizeram tão bem que quase voei. E penso se realmente não fiquei a uns metros do chão. Outras não foram tão agradáveis assim. Preciso dizer, você foi cruel em alguns momentos.

Uma hora, percebi que você não seria tão delicado e simples como os outros que vieram antes de você. Decidi ser forte para não te perder. Abandonei os sonhos, as listas, os planos. O que chegasse e fosse bom teria que ser suficiente.

No final, uma brisa de esperança bateu, achei que você facilitaria as coisas, que, afinal, estaria salva. Mas foi só ilusão, não é? Você não facilitaria tanto assim.

Mas peço desculpas. Demorei para entender o que você queria me dizer.

Quase não deu tempo, 2012. Agora eu sei o que você tentou falar nesses 362 dias.

Eu separei os meus melhores sonhos e planos para você, mas você não queria saber deles.

Te mostrei a lista (detalhada) do que eu queria que acontecesse com a gente assim que você apareceu. Mas você não passou do primeiro item. Como eu pude demorar tanto para entender o que você queria?

Sim, eu sei, você deu os seus sinais desde o começo, mas tinha tanta coisa acontecendo que ficou difícil te escutar. Mas eu entendi. Aprendi.

Meus planos deram errado e meus sonhos ficaram distantes. O que eu não esperava, você precisava fazer o maior estardalhaço, né?

2013 está chegando e eu vou ficar em silêncio.

Sem listas, sem planos, sem palavras escolhidas a dedo. Sem amores lógicos e disléxicos, sem tentativas de ficar milionária sendo estudante. Não vou tentar ser a Mulher Maravilha de novo.

E antes que isso vire uma lista, só peço uma coisa, 2013: que os sonhos voltem a ser próximos para que eu possa voltar a existir, ser, viver, amar. Alegre.

“O que fazer para interromper aquele caminho, conceder-se um intervalo entre ela e ela mesma, para mais tarde poder reencontrar-se sem perigo, nova e pura? […] Desejava ainda mais: renascer sempre, cortar tudo que aprendera, o que vira, e inaugurar-se num terreno novo onde todo pequeno ato tivesse um significado, onde o ar fosse respirado como da primeira vez. Tinha a sensação de que a vida corria espessa e vagarosa dentro dela, borbulhando como um quente lençol de lavas. […] Às vezes ouvia palavras estranhas e loucas de sua própria boca. Mesmo sem entendê-las, elas deixavam-na mais leve, mais liberta. […] Sim, descobriu divertida… Por que não? Por que não tentar amar? Por que não tentar viver?”*

*Clarice Lispector – Perto do coração selvagem

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2 comentários em “Trilhos invisíveis

  1. No 18o dia do ano (que tem sido corrido a ponto de me dar a impressão de já ser 2013 há uns dois meses), confesso, não esperava me deparar com post de final de ano. Mas caí de para quedas no seu blog, procurando nome do autor do menor conto do mundo, e resolvi me demorar mais um pouquinho por aqui.

    Comecei a ler o texto achando que se tratava de uma história de amor que havia terminado deixando estragos em você. Mas era bem mais legal do que isso. Bom texto, guria. Bom mesmo.

    Boa sorte com o ano que tem pela frente. 😉

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