No meio da água

No meio dessa chuva, estou aqui. No meio desse universo contido. Despressurizar. No meio desse verde. Essa folha está há quanto tempo voando no ar? Estou aqui, no meio desse banco verde. Tem tanta gente sendo vivida ao meu redor. Observo olhos com expectativas, mas firmes. Há olhos que não veem. Um quadro azul na parede mostrando os pensamentos de alguém que não está aqui. A vida não está lá fora. Está aqui.

Resistir a essa chuva que às vezes me traga em um trovão. Resistir à queda dessa árvore. Uma árvore que se põe com o sol. Há noite nessa chuva, o sol está se escondendo. Não se esconda. Não fuja. Se lembre como foi que o dia começou, naquele segundo que nasceu, amor. Aquele segundo em que tudo nasceu. Tudo aconteceu.

Como foi?

Deve haver silêncio para que se ouça o nascer dessa árvore. A esperança. Deve haver silêncio para que os olhos vejam. Deve haver silêncio. Não se trata de apenas falar. Há que se organizar o sentir, organizar a terra. O chão em que se está.

Aos poucos, os caquinhos coloridos assentam no fundo do caleidoscópio.*

No ritmo dessa dança vivida. Ouvir essa folha voando.

Preciso não me deixar levar. Preciso me ouvir. Pé no chão. Não apenas rosto. Com todas essas feridas ardidas. Com todas essas esperas áridas. Com todos esses ruídos agudos, doídos. Mudar. A muda de uma árvore que ainda não nasceu. Mudar. Abrir. De novo doer. De novo me abrir. De novo ouvir não. Mudar para abrir.

Quero ouvir o sim.

Dizer o não dito pelo escrito, ainda. Do que adianta uma vida sem não ditos, sem escritos, apenas com ritos?

Ah, os risos. Não me esqueço deles. Nunca. Da dor, sei que foi muita, muitas, mas não lembro de nenhuma. Dela em si? Não. Apenas vejo seu rastro, sei que esteve aqui.

Mas com risos e sorrisos recheio uma caixa. Nomeio cada um com o nome de seu dono. Sorria para mim, lote uma caixa com os seus risos dentro de mim.

Plante a sua árvore no meu meio. Seja a minha esperança. Dance com as suas folhas entre as minhas folhas. Coloque as suas sementes no meu solo. O que nascerá?

Eu rego com essa água. É o que me deram. Amor.

Essa água que se espalha, sem dono, sem limite, que eu mesma não controlo, mas vejo rios dela correndo em mim, através de mim, para fora de mim. Toma. Bebe. Mergulha nessa água.

Eu já tentei aterrar esse rio, fazê-lo seguir o curso que eu quero. Mas água que é água não obedece. Corre, se espalha, avança, sem caminho, sem rota, sem margem.

Eu te dou uma ilha no meio desse mar. O que você vai plantar? O que vai nascer de nós?

 

*frase de Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato
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