Manga, limão, bicicleta, coração

Ela tinha vivido plenamente.

Amou, bebeu, chorou, caiu, riu e fez rir. Não sabia o que estava fazendo, mas queria fazer e era isso que importava.

Gostava de mangas, bicicletas e música. Especialmente “aquela que fala de amor”.

Os olhos cor de limonada brilhavam, se agigantavam nos óculos para leitura. Loira, alta, poderia ser modelo, mas decidiu ser palhaça. Era enfermeira nas horas livres.

Nem tudo eram narizes vermelhos, mangas e bicicletas. Havia aquela paixão não correspondida, havia um universo que ninguém ousava entrar e que apenas seus 11 cachorros tinham o passe de entrada.

– Gente é uma merda. Bicho é bem melhor, bicho é que se deve amar. A gente ama e eles amam de volta. Já pessoa, a gente entrega o coração limpinho, pronto pra explodir de amor e recebe de volta cheio de buraco, espinho, bala perdida e o diabo a quatro.

Era enfermeira para provar que poderia ser melhor que qualquer paciente. Fazia o que nem os familiares faziam. E fazia só pra mostrar que não precisava estar fazendo, mas era melhor que tudo aquilo e fazia mesmo assim.

A bicicleta a fazia voar. A música, lembrar do amor não correspondido, e que, por isso mesmo, seria sempre dela. As piadas a lembravam do mundo real. Ela mesma garantia que todos rissem da realidade como se fosse piada (o que não era).

Um dia, desistiu.

Pegou sua bicicleta, seus discos, os 11 cachorros e foi para longe. Morava no meio de uma plantação de mangas e limões.

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