A descoberta do encontro

Eu sempre quis dizer – talvez pelo peso que a história criou, talvez para fazer valer os quatro anos estudando grego – eureka. Não como quando a gente encontra um documento perdido ou finalmente sabemos o que escrever naquele email. Eureka em seu sentido original, antes de Arquimedes.

Eureka quer dizer encontrar.

De uns meses para cá, tenho vivido em silêncio com o resto do mundo. As poucas pontes que tenho com o que está fora estão semi-levantandas. Estou à procura. À procura das palavras que se encaixariam em mim agora. Não quero uma descrição, não quero um jornal que narre em alguns verbos malandramente escolhidos a história vivida até aqui. Quero palavras sonoras, casadas, delicadas e fortes que se digam por si mesmas, que não se trombem nem desencontrem. Quero palavras que se – me – encontrem.

Eu reservei o momento que diria eureka. Não podia ser qualquer hora, qualquer lembrança que talvez pudesse ser mais forte. Esse momento precisava ser certo, sem dúvida, reservado.

Quando o momento chegou, parecia óbvio que era apenas isso que poderia ser dito. Eureka.

E do mesmo jeito de quando a gente encontra o celular perdido sem bateria, o livro querido que estava sumido, a rua que se fazia escondida no mapa, eu disse eureka. Encontrei. Ali, nada faltava. Disse com alívio. Era uma das raríssimas vezes em que eu não estava tão enganada quanto achava. Havia razão, fundamento para aquele momento.

Mas o momento passou e algumas rachaduras apareceram no chão. O tempo tratou de aprofundá-las para que uma nova camada de barro fosse colocada e, enfim, outro chão se fizesse.

Hoje tateio esse chão, mistura de lama, barro e cerâmica, tentando novamente dizer eureka. Procuro e não encontro. Não há mais encontro. Nada foi descoberto.

Não quero reviver nenhum momento, quero reencontrar o que agora está perdido, antes que o agora vire para sempre.

Eureka.

Te encontro por aí em sonhos, em palavras, em sons. Mas não te busco mais. Não é você que procuro. Procuro as palavras que se esconderam depois do último encontro. Não sei por onde elas andaram, agora que voltam – aos poucos –, não sei o que fazer com elas. Mas encontraremos o caminho. Ele não nos levará a você. Mas é justo que você saiba. Eu disse eureka quando te vi.

Mas aprendi que o encontro não se faz apenas do alívio de achar algo perdido que estava fazendo falta. Encontrar é se envolver. É um salvamento em mar bravo. Com todas as possibilidades que isso envolve.

Não vou mais dizer eureka. Mas agora eu sei que se trata de um encontro e não mais de uma descoberta.

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