A falta

O que fazer com a falta que surge como um buraco na cama todas as manhãs? O que fazer senão olhar, com o olho árido, para ela, a falta, que me faz companhia, do jeito pesado que as faltas fazem companhia, arrastadas pelo dia, como um cadáver arrastado é pela mão fria. O que fazer com a falta, em cobertas não minhas? A falta, um terno fechado, um vestido guardado, de dias festivos e mais felizes. A falta, que depois de meses, em vez de desvanecer, consolida-se em não ser. Ela, que me diz bom dia. Ela, que me diz boa noite, e toma café comigo, à tarde, a falta. O que fazer com ela, que sussurra, que berra, que fala, que transmite em todas as frequências em horários extraordinários? A falta, que batiza a si mesma, com o nome da ausência, nome de raiva e tristeza, sentimentos binários que me assaltam e cabem todos tão bem, conjugados na concha, na bacia da falta. Que me vem quando estou sozinho e desprevenido, quando estou acompanhado e finjo para mim mesmo não senti-la, mas principalmente quando estou sozinho e desprevenido e não tenho como fugir, pois a falta está em mim. Surpreende, quando vem mais cedo. Surpreende, quando vem mais tarde, me dobra os joelhos e curva os ombros. Toda falta é precoce e tardia. Tira o sabor dos alimentos, escurece o sol e faz as crianças e bichos desaparecerem da rua. Cuidado, que o homem da falta está passando. E quando acordo no escuro certo de que, no último alento, morrerei só, imundo mesmo de solidão e assombros e me vejo mais velho nos olhos do velho ainda mais velho que ainda serei, pergunto o que fazer com a falta. Pergunto e me debato, como se de algum lado fosse encontrar a resposta, como se a resposta estivesse na posição do corpo, como se eu pudesse perguntar em bom som e receber a resposta da parede úmida, das línguas mudas e presas nas bocas seladas e secas dos retratos que me olham interrogativos como esfinges. A falta também chega à noite. Às vezes, você chega na falta, pois ela o espera em lugares inesperados e tinge de preto e branco os girassóis. Ela é o tiro pelas costas porque você esqueceu que está sem retaguarda. A falta que se revela nas cinco primeiras notas que sejam de alguma canção que, agora, é só mais uma canção que parte da Terra para o Universo, sem que ninguém a ouça, como aqueles satélites enviados em busca de nada. A falta que se realiza no desejo de matar ou morrer apenas para ver o que acontece e na incapacidade de morrer e matar. Nas palavras não realizadas, no gesto violento ou de carinho que perece, pois a mão que o realizaria carece de desejos ou está sem forças, cansada de sentir falta. A falta, ela que se desvela nas predições de um profeta louco e mentiroso, todas ao contrário. A falta que me zela, a falta que me descuida, a falta que deixei no portão ao entrar em casa, a falta que me aguarda em meu quarto, a falta quando me dispo, a falta quando temo estar falando sozinho. Mas não. Estou falando com a falta. A falta tão grande que chega a ser falta de mim mesmo. O que fazer com a falta?

 

 

*texto de Alessandro Martins, do Livros & Afins.

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