Embaixo da mesa

As roupas estavam sujas e levemente rasgadas. O cabelo, porém, dava sinais de que fora cortado há pouco tempo.

Não havia mais ninguém ali, muito menos que o enxergasse. A procura por câmeras e seguranças era vã.

Para conseguir a atenção que queria e não tinha, o esforço dele seria mínimo, muito menor do que o esforço para manter sua invisibilidade – presente das ruas – naquele ambiente fechado, cheio de prateleiras e televisões. Mas ele se manteve ali, mal respirando. Queria continuar invisível nesse outro mundo do qual não deixavam que ele participasse livremente.

Seus olhos estavam vidrados: passava o filme do Capitão América nas televisões.

O esconderijo que ele escolheu não era lá muito fiel e revelava o segredo de sua presença a uns poucos passantes mais atentos.

Sentado no chão, debaixo de uma mesa cheias de DVDs em promoção, assistia, hipnotizado, a história de um jovem transparente para o sistema de sua época que se tornou o herói forte, moral e representativo de sua própria nação.

Eu não me importo com as opinião políticas que vêm sendo atiradas por todos os lados em qualquer lugar, como se todos fossem especialistas.

Eu me importo com crianças abandonadas e esquecidas que precisam se camuflar para que possam usufruir (pouco e mal) de um mundo que só pertence a adultos focados em seu próprio (ideal de) conforto.

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