Radar

Uma rua pacata, com apenas dois prédios, algumas árvores e várias casas pequenas nas quais ainda moram seus primeiros habitantes de 60 anos atrás.

Numa manhã de sol, a tranquilidade ruiu. Cinco viaturas da Polícia Militar, quatro motos e dois policiais ciclistas. Muita gente na rua, observando, comentando.

Do meio das fardas, um homem negro, alto e magro grita: “Não fui eu! Mas não fui eu!”, enquanto é empurrado pro camburão, acusado de ter roubado um carro.

Uma sala de aula barulhenta, com crianças agitadas, carentes e inteligentes o suficiente para manipular adultos. O professor, contratado há alguns dias, tenta, sem jeito, controlar a sala, enquanto vê, com o canto de olho, a coordenadora da escola escutando tudo próximo à janela mais baixa da sala. Ele pergunta para os alunos, em meio a berros, se há lição para eles fazerem. Os alunos, com toda a sua malícia misturada à inocência, dizem que não, não há lição para eles fazerem hoje durante a aula. Eles vão para o parquinho da escola.

Um casal com inúmeras histórias se senta para um café. O dia está frio, o ar-condicionado da cafeteria está ligado, eles se sentam próximos. Depois que o esperado café chega, ela pega na mão dele, respira fundo e pergunta: “Você me ama?”. O tempo deixa de se movimentar. A pergunta é eterna enquanto a resposta, que deveria vir a galope, vem a passos hesitantes, meio arrastada, sem querer vir.

No mundo de hoje, a verdade não tem valido muita coisa. Vive sendo enterrada, escondida, amordaçada. Empurrada para o mais longe possível de todos. Ninguém quer acreditar, nem ver, nem ouvir, muito menos dizer. A idade, a cor, o dinheiro, a posição, nada importa para o dueto da mentira e da verdade. Elas dançam uma música frenética e assustadora hoje em dia. A verdade cai, a mentira chuta.

Três situações que parecem não ter nada em comum, até que enxerguemos essa dança histérica.

A família do homem preso assistia a sua prisão do outro lado da rua, a cinco metros de distância. Ninguém fazia nada para defendê-lo. Quem dizia a verdade? Quem agia de acordo com ela?

Crianças que dizem não ter lição, sabendo que a coordenadora as ouve, sabendo que todas as lições estão anotadas na agenda. Insistem que não há lição, o professor não sabe de nada, ele não estava na aula anterior. Quem ensinou a elas como mentir? Como mentir tão veemente a ponto de quase acreditar na mentira?

Na cafeteria, enquanto perguntas começam a se acumular na cabeça dela, ele diz A, faz B, comunica aos outros C, escreve D… A verdade seria tão horripilante assim que não pode ser dita e libertadora para ambos?

Não adiantará mais apenas um detector de mentiras. A verdade anda tão escassa que seria preciso um radar para encontrá-la. Ainda é preciso socorrer a verdade do chão, alimentá-la aos poucos, torná-la forte para as lutas que impomos a ela.

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