Seu amor que nem chiclete

“Seu amor que nem chiclete”, dizia a placa. Pensei que, realmente, esse ramo está precisando de inovação, a concorrência é grande.

O mundo já tem 7 bilhões de pessoas. Difícil achar um amor, e quando achamos, um que fique com a gente. Completamente compreensível.

Que nem chiclete. Foi bem humorado, um chute bonito, não?

Nada de trazer de voltar, nada ritos, sapos, farinha, cachaça. Chega de bagunça. Chiclete. Pode até melhorar o hálito. Clarear os dentes. Ajudar com a fome. Diminuir o sono. Ajuda em tanta coisa! Muito mais útil que a volta de alguém que quis ir embora. Você pega e gruda, pronto! Resolvido.

Nada de mega tarefas hercúleas, de músicas humilhantes, de dor cotovelo. Não! Agora somos pós-modernos que resolvemos o amor com um chiclete, como chiclete. Quem não vai querer?

E são taaaaantos sabores! Cada um serve para uma coisa, você pode escolher de qual precisa. Um companheiro limpinho que deixe tudo cheirando menta? Uma mulher que te acorde e tire do marasmo? Alguém divertido para fazer bolhas com gosto de morango? Tem de todos os sabores, cores, formatos, propósitos. O tédio não volta nunca mais! E nem a dor de dente (ou era de cotovelo?). Agora também temos chicletes que servem para limpar os dentes, tirar o açúcar, deixar as raízes mais fortes. É realmente impressionante a vastidão de chicletes e amores que temos hoje em dia.

Seu amor que nem chiclete.

E um número de celular. Nada de pai disso, pai daquilo, oração de não sei quem, filho do espírito tal. Não, já estamos em 2015. Um número de celular fará seu amor ficar como um chiclete.

Grudento, doce. Mole, duro no início. Ou não era isso?

Ah, sim. Escolhemos nossos amores para escolher nossos chicletes. Não, espera… isso está ficando confuso. Escolhemos nossos chicletes para escolhermos nossos amores?

Amores e chiclete, na verdade, na verdade, não rimam. Não colam. Não ornam. Talvez eu ainda esteja em um século muito ultrapassado, em que amores são feitos com tempo, com mútua escolha, com cuidado, carinho, sem egoísmo na fórmula.

Não é romantismo, veja bem. Não amo minha mãe como um chiclete (apesar de sermos grudadas). Talvez o amor se confunda um pouco mesmo com chiclete. Com essa vontade de querer estar junto o tempo todo, de encostar o ouvido no peito e ouvir o coração, o tempo todo, só para garantir que ele está mesmo batendo.

Não quero o meu amor como um chiclete. Posso até ouvir as batidas no telefone, mas o grude, deixo pro amor no coração.

 

[texto de Corpo Escrito, o livro que estou escrevendo e logo sai]

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Um comentário em “Seu amor que nem chiclete

  1. Adorei!

    Tem outro problema: o chiclete logo perde o sabor e vai ficando seco e sem-graça. Pode ser a realidade da maioria dos amores, mas certamente não é o que eu procuraria um profissional para obter hehehe

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