Cúmulo

Já fazia muito tempo que não chorava. É verdade que tentava um pouco a cada oportunidade que se apresentava. De cebolas a bocejos, de filmes à cenas da realidade. Tudo era motivo para o choro, que nunca acontecia. Como lidar com a negativa tão urgente e inegável que se apresenta sempre que não a queremos? 

Tentava chorar e não conseguia. Quanto maior o querer, maior a frustração. Se tornava insustentável continuar assim. O que seria preciso para sair dessa prisão tão incoerente? 

Apertar os olhos, olhar nos olhos, segurar as mãos, suspirar em um pescoço, ouvir a música , dançar no escuro, lembrar o vazio. 

Então era assim? Nada mais traria a água que lava a alma? Tornara-se de vez uma esponja seca e sem vida, razoavelmente vivendo a média do que não se espreita? 

Teimosa, negava. E quanto mais negava, mais seca ficava. 

Por que olhos tão vazios?

As águas apenas se represavam mais a cada minuto da existência. Mas qual seria a enchente de uma represa seca? 

A contradição de viver sem sentir jamais dará qualquer resposta aos loucos navegantes do seco rio. 

Desistindo da correnteza que trazia os tesouros profundos, deixou-se secar. É verdade que sentiu os últimos tremores anunciando a pequena fonte evaporar, mas nada faz sentido se não sentimos. Ignorou, jogou mais terra, enterrou os rios e os amores que um dia viveram dentro de si. 

Já não queria mais chorar, não queria mais sentir. Doer, feliz, tanto faz. A vida vai independente de nós. Não? 

Tanto faz a lágrima, tanto faz o riso. O corte da carne também para de ser sentido, de fazer sentido. E o que faria qualquer vivência embaixo de uma terra morta?

Não havia mais vertigem dos dias e a poesia jazia na engrenagem sórdida. 

Um pé depois do outro bastaria para que a ordem se fizesse sem baixaria, gritaria, choradeira. 

Os passos, uma noite, a levaram ao poço da escuridão, em que a água parada jazia, sem toque, sem vida. Lágrimas que precisavam ser choradas, movidas, vividas de novo. 

Abandonada, a água se se tornava pedra, peso, abismo chamando abismo. 

Pois que doesse, não mexeria. Tocar naquela água… não. Era morte e era rápida demais. 

Passou dias circulando o poço, à distancia, os olhos não tão curiosos assim. Mas enquanto girava, a água acompanhava. Seus movimentos não eram ignorados, nada passava sem ser notado. 

A água se mexia agora, e subia. Ela não cairia naquele poço de novo. Era morrer sem saber, mas sabendo demais.

Em uma noite quente, ela se tornou a própria sede, a própria dor. 

Chorou. 

Chorou porque a água finalmente quebrara todas as paredes que construíra. Lembrou que sentia, que doía, que vivia. 

Autômata lição do dia a dia: não há igualdade no viver. 

Chorou, porque sozinha, via seu reflexo na água, despejando as lágrimas que antes não chorara. 

Chorou, porque como os livros na cabeceira, as lágrimas se acumulam ignoradas. 

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