Caça-palavras

Hoje, estou sem voz, rouca como só uma noite na rua pode fazer. O som falha. Mas a música já toca. O ar continua frio. O piano desliza. As palavras somem, vão e não voltam. Nem escritas, nem faladas.

Escrever sobre não escrever é praticamente reescrever tudo que já foi dito sobre isso. E seguimos a escrever? Sigo andando pela casa descalça. A música me embala mais do que percebo, quando vejo, já estou ali. Petrificada. Justo ali.

Paro na frente da nossa foto, um espeto de gelo me perfura o estômago. A estrutura, que de tão frágil já sei que quase não existe, treme mais um pouco. Ela teima em cair quando consigo juntar dois tijolos. E logo os tijolos já estão espalhados pelo chão, construindo estrutura nenhuma.

A nossa foto. Lembra? São algumas, mas essa é especial. Estamos com o mesmo sorriso, o mesmo olhar. Não é uma foto perfeita, mas é tão cheia de significados que prefiro ela assim.

E o gelo continua no estômago, imediatamente percebo que jamais conseguiremos fazer outra foto assim.

O sorriso e o olhar já não existem mais em nós, já nos esforçamos demais por mudar, para ser e não ser quem somos. Ser quem achamos que queremos ser, mais perto das pessoas que admiramos, mais longe das pessoas que amamos.

Ser um outro que não a gente, porque ser é difícil. O estômago congela quando somos realmente. Quando existimos fielmente.

A foto. O gelo. O seu sorriso que me faz tanta falta. A conversa animada. Já faz quanto tempo que não somos nós?

Você está aí, existindo longe, diferente, me dando um gelo, que insiste em se concentrar no meu estômago, que cria a corda que será o nó no meu ombro.

Me retorço, é difícil existir sem você, sem quem criava tanto em mim apenas por ser fogo, por ser perto. Por criar o desespero e a felicidade de tanto calor.

Que falta. Faz quanto tempo que nos faltamos um ao outro, simplesmente porque decidimos ser outros e esses tais outros não concordam tanto assim?

Hoje recebi um conselho que segui a vida toda intuitivamente. Se você ama, diga.

Espalhar um amor real na vida de outro é curar o próprio desamor.

Uma vez achei que estava errada dizendo que amava. Às vezes, ainda me questiono. Mas era seu direito saber que alguém nessa tão difícil terra que é a vida te amava por inteiro, cada osso e cada nervo, cada dente. Que contava os minutos para finalmente poder tocar. Ah, era seu direito saber que a vida de alguém se tornava melhor por sua causa. E eu disse, disse, disse. Mas algo cresceu em nós e tornou as palavras espinhos. Hoje, não posso dizer que te amo, a estaca de gelo segue girando do meu umbigo às minhas costas.

Mas mesmo assim, é importante que você saiba. Te amo, ainda. Sempre.

Porque existir sem esse amor é des-existir. Me recuso a desistir de uma existência fadada a ser boa, por um erva daninha ter se instalado entre a gente, mostrado espelhos que nos afastaram, tão encantadores. É reconfortante, eu sei, se olhar em um espelho e se enxergar, mesmo que a imagem não seja a sua realmente. Saber quem se é define toda uma vida. E quem consegue definir a vida?

Caço as palavras no meio do pântano, malditas palavras rebeldes, nunca querem se aproximar de quem quer trabalhar com elas. Vejo as centenas de palavras que poderia usar para te dizer tanto. Mas o que importa?

Importa juntar as que devem estar juntas. Você. Eu. Nossos sorrisos. Nossos olhos brilhando. A fotografia que jamais vai deixar essas palavras ecoarem vazias.

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2 comentários em “Caça-palavras

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