Valsa noturna

Os dedos passavam de leve na madeira do corrimão. Ela andava devagar. A camisola de seda esvoaçava com o vento frio da noite. Quem diria que ela…

Arrepiada, os dedos mal tocando na madeira, ela pensava em todos aqueles que se aproximaram dela. Homens tão diferentes e tão iguais. Por um momento, ela contou as fibras da madeira envernizada. Tantas fibras, tantos homens.

Descalça, pé ante pé, ela se movia como se estivesse dentro da água.  A dança de seus pensamentos invadia e envolvia os sentimentos que rodopiavam a esmo.

Sem sentido, essas fibras, esses homens, esses sentimentos. onde é que ela iria…

O corrimão, que dava base para seus dedos, permanecia inerte. Havia recantos dentro dela que invejavam essa estabilidade. Tudo rodopiava sem ritmo, sem nexo. Ninguém percebia que mesmo o corrimão se contorcia.

No vermelho envernizado, na camisola branca, na luz azul da lua, em tudo eles estavam. Toda ela era eles.

Como dançar uma valsa com mil amantes?

Os olhos dela rugiam. E quem veria?

Sentou no corrimão. Todos eles a olhavam como a plateia assiste a bailarina se equilibrando em uma corda. Todos os olhos nela. Os dela, onde?

Quando o universo decide parar no ar é que a vida está para acontecer.

E ela, sentada na corrimão, no meio da noite, com todos os amados em sua mente, apenas esperando o final de suas sentenças. Ela sabia que ali a vida planava, a vida seria. definitivamente.

Todos esperavam o momento.

Ela fechou os olhos. os outros todos seguraram o ar. O espetáculo da bailarina chegava ao ápice. Em cima da corda, todas as direções existiam para ela.

Em cima da corda, o que eles seriam para ela?

A multidão de olhos aguardava ansiosa, mas com paciência, qualquer movimento em falso colocaria tudo a perder, inclusive ela de si mesma.

Respirar quando a tensão chega ao máximo é a tarefa mais difícil de qualquer um que se disponha a ficar em cima da corda, a rodopiar nela quando existe apenas o abismo por todos os lados.

Respirar. Fechar os olhos e respirar. Seria possível?

O mundo parou para saber qual era a decisão dela.

Como dançar com todos os amores que existem em uma pequena sala, com uma enorme escada, iluminada apenas pela lua, tocando a música do vento?

Sete pares de olhos sugavam cada poro de sua pele naquele momento tão leve e tão severo. Sete corações disparavam, temendo por sua existência. Se não o amor, o que mais pode fazer viver?

Quando a espera começava a se tornar eterna, o coração dela percebeu que não poderia mais atrasar o tempo e vivê-lo para sempre com os sete corações que o rodeavam. A dança precisava continuar e era ele o responsável pelo ritmo. Tantos ali já tinham se chocado, cortado, mutilado… não faltava muito para deixarem de ser, viver, pulsar.

Responsável, ele não podia deixar que o mundo perdesse sete corações.

Ela desceu os últimos degraus que faltavam da escada, deixando seu pé afundar totalmente no tapete. Os pés, em geral tão escorregadios e desatinados, se comportavam excepcionalmente bem nessa noite. Ela estava de olhos fechados e seu coração batia o ritmo certo para cada um ali.

Ela passou um momento com cada um e todos. As mãos massageavam os olhos. Os olhos banhavam a pele. A boca dizia, em silêncio, que o amor vencia tudo, ela mesma experimentara.

Aos poucos, todos foram entrando no ritmo. Ninguém mais se chocava porque todos os corações se alimentavam.

Ela passou por cada um e cada um passou por ela.

Quem a visse ali, não duvidaria de sua loucura por tantos anos de solidão.

Mas dentro dela, aquela noite da amável valsa dos amantes se repetia continuamente. Já não eram sete os corações que a viam dançar em cima da corda, mas uma multidão acompanhava, encantada, a valsa daquela mulher que guardava corações alheios dentro de si, apenas para aprender a dançar no ritmo deles.

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